
Dogville
A intenção do diretor é criar uma trilogia sobre os Estados Unidos, iniciando-se com esta primeira parte. Curiosamente, o diretor jamais visitou o país pretensamente "homenageado" - ele costumeiramente é chamado de anti-americano e seus filmes jamais chegaram a fazer sucesso em solos ianques. Localizando sua história em um pequeno lugarejo nas Montanhas Rochosas - Dogville - durante a depressão ocorrida após a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929, o filme centra-se em Grace (a bela, talentosa e magnífica Nicole Kidman, que cada vez mais prova ser a grande estrela da atualidade, mesmo trabalhando intensamente e não mantendo um padrão de qualidade em seus filmes), uma assustada moça que chega à pequena cidade fugindo de gângsters.
Ela é recolhida e assistida por Tomas Edison Jr. (o sempre excelente Paul Bettany, o Dr. Stephen Maturin em Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo) e ambos acabam tendo uma relação conturbada. Grace, aliás, acaba sendo descoberta por todos os moradores do local e acaba tendo sua permanência submetida a uma votação local. Ela consegue a permissão para ficar, desde que passe a prestar serviços para todos os habitantes, e acaba sendo submetida em uma espécie de escravidão. Obviamente, esta tênue linha que move Grace acaba se rompendo e o desfecho será trágico. Com um roteiro extremamente bem desenvolvido, escrito pelo próprio Lars von Trier, o filme dá margens a diversos tipos de interpretação e não se permite deixar de fazer sequer uma crítica mordaz à sociedade americana. E vai além: ele consegue analisar, apropriadamente, o comportamento humano, deixando psicólogos e sociólogos perturbados com seus devaneios subliminares.
O grande e fantástico elenco de apoio é mais um trunfo, mas que acaba se tornando o grande revés do filme. Excetuando-se Paul Bettany e a ótima Patricia Clarkson (que acabou sendo descoberta ano passado quando foi indicada ao Oscar de coadjuvante por Do Jeito Que Ela É), é impossível não se ressentir com o mal aproveitamento da grande Lauren Bacall, por exemplo. E olha que o filme tem James Caan, Jeremy Davies (o louquinho de O Hotel de Um Milhão de Dólares), Philip Baker Hall, Chlöe Sevigny e Stellan Skarsgärd. Não deixando de lembrar que o filme é todo narrado por John Hurt.
Von Trier é um grande marqueteiro e pode ter uma legião de odiadores tão grande quanto o seu fã-clube, mas consegue, a cada obra realizada, uma grande façanha: a de manter nossas mentes ocupadas por um bom tempo após a subida dos créditos finais.
Texto adaptado do site Cineplayers.
1 comentários:
Baixei o filme ontem e acabei de assistir. Não poderia ter deixado de ler sua análise, e concordo inteiramente com ela.
Dogville é de uma violência extremamente inquietante, não pelas cenas de estrupo, tampouco pelo mini-genocídio. Ao fim deixa um vazio e muitas indagações. É o tipo de filme para se assistir mais de uma vez.
Muito obrigado pelo post, e pelo acervo qualitativamente incalculável.
Murilo G.
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