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16 junho 2012

Artigo: Prometheus (2012)



CONTÉM ALGUNS SPOILERS 

Prometheus marca o retorno de Ridley Scott as telonas, e melhor que isso, marca o retorno de Ridley no universo que ele construiu em Alien (1979) e que o impulsionou para se consolidar como o diretor que ele é hoje. Tudo isso nos leva a um único caminho: Criarmos grandes expectativas para Prometheus.

Se passando na segunda metade do século XXI, a história se centra na tripulação da nave estelar Prometheus enquanto eles seguem um mapa estelar descoberto entre os restos de várias civilizações antigas da Terra. Levados à um mundo distante e para uma civilização avançada, a tripulação procura as origens da humanidade, porém encontra uma ameaça que pode causar a extinção da espécie humana.

O roteiro de Prometheus foi parcialmente inspirado no obra Eram os Deuses Astronautas?, escrita por Erich von Däniken, que apresenta a teoria de que os precursores da vida na Terra seriam astronautas extraterrestres. Além da declaração dada pelo próprio Ridley Scott, há muitas referências ao longo do filme que permitem que este paralelo seja constatado, como por exemplo a cena inicial do filme.

Cena Inicial:

Com uma nave espacial pairando sobre si, um alienígena humanóide bebe um líquido borbulhante escuro, e então começa a se desintegrar. O seu corpo cai em uma cachoeira, o seu DNA desencadeia uma reação biogenética que origina vida em um planeta. (muito provavelmente a Terra)

Após essa cena, o filme se torna muito semelhante ao Alien (1979), os tripulantes da Prometheus são apresentados, todos com seu esteriótipos bem definidos (Algo que como o Luiz Gustavo disse, funcionava muito melhor nos anos 80), assim como acontece em Alien - O Oitavo Passageiro. A cena da primeira refeição na nave Prometheus também remete diretamente ao Alien (1979), assim como basicamente toda a primeira metade do filme.

A primeira metade de Prometheus é incrível, Ridley Scott realmente sabe criar um universo envolvente, e o melhor, convincente. Visualmente o filme inteiro é lindo, e a Computação Gráfica usada consegue nos transmitir aquele tom de veracidade.

Outra coisa que posso destacar é a incrível atuação de Michael Fassbender no papel do android David.



É na segunda metade do filme que as coisas começam a ficar enroladas:

O Filme Alien O Oitavo passageiro (1979), assim como as outras sequências apresenta um conceito razoavelmente simples: Temos a "Mãe Alien" que bota ovos, destes ovos nascem os Facehuggers, que são criatuaras que se fecundam em um hospedeiro ao se agarrarem no seu rosto e etc.(Daí o apelido de "Facehugger")

Em Prometheus Ridley Scott nos apresenta um conceito muito mais complexo que o de Alien (1979), e questionamentos que nos remetem a religião e origem da espécie humana(Darwin? Fuck that shit), e foi aí que o filme se perdeu. Meu foco não é citar os furos no roteiro, até porque mesmo com a estréia ainda recente, já devem milhões de resenhas fazendo isso.

Digo que saí do cinema com uma sensação boa sobre o filme, porém um pouco decepcionado. Acho que o conceito anterior de Alien foi ampliado de tal maneira, que acabou gerando confusão. Afinal, quanto mais complexa é a história, maior a chance de que aja brechas no roteiro.

Existe também a possibilidade o tempo limitado do filme tenha influênciado o seu desempenho na segunda metade, vendo que um filme que insere tantos conceitos novos e complexos a uma franquia já consolidada deveria ter mais de duas horas de duração.

Seja pelas altas expectativas, pelo tempo limitado ou pelo o roteiro com furos, o filme Prometheus e não cumpriu, mas ainda vale a pena ir assistir.
 
O filme tem uma continuação quase certa para 2013-2014, só nos resta esperar, e descobrir o que realmente se passa na cabeça de Ridley Scott.

06 setembro 2011

Artigo: Em Sua Pele (2009)


Há barreiras na mente humana que o homem jamais poderá atravessar, nem em seus mais gloriosos sonhos, pesquisas ou medicina. Essa barreira é imposta por cada ser, variando sempre. Uma barreira, um mundo, onde coisas completamente absurdas podem se tornar completamente acessíveis e admissíveis, para si mesmos.

Porem, quem somos nós para tentarmos desvendar essa barreira, ou até mesmo criar teorias sobre ela. Se ela é tão difícil de ser alcançada podemos simplesmente apontar os fatos, deixar que nos apontem os fatos, observar histórias reais, relatos. Sentarmos em algum lugar confortável e deixarmos que alguém nos conte uma história sobre o quão doentia pode ser a mente humana.

Austrália, março de 1999. Uma história que tem como protagonistas: Caroline Reid e Rachel Barber. Uma história sobre um drama psicológico que afeta a vida de ambas as garotas, mas de formas diferentes.


Caroline Reid, o problema. Gorda, com os pais separados, odeia a si mesma (principalmente por sua aparência), problemática, depressiva e, porque não, incompreendida. Ridicularizada na escola, numa briga constante com a mãe e sem o tão querido afeto do pai.
Rachel Barber, a perfeição. Espírito livro, bonita, inteligente, talentosa, amada pela família e feliz. Cercada de amigos, apaixonada pelo belo namorado, cercada do amor e devoção por todos os lados.

Duas vidas completamente distintas, que quando se cruzam misturam adoração, inveja e raiva numa mente completamente conturbada. Onde uma mentira é construída, uma omissão é lançada e um dia que tinha tudo para ser normal acaba em tragédia e sofrimento.

Uma história verídica que ganha vida nas telonas e dá origem à In Her Skin (Em Sua Pele). Película australiana, lançada 10 anos após o acontecimento real, dirigido e roteirizado por Simone North.

Com um crime real em mãos Simone tenta nos levar ao ambiente em que uma garota, de 19 anos, com sérios problemas psicológicos decide livrar-se daquela que é ao mesmo tempo seu ponto de referência e sua maior “inimiga”. Mostrando-nos o drama pessoal em que Caroline vive, ela constrói o universo, superficialmente, de suspense em que a trama mergulha.

Este filme está muito longe de ser um daqueles suspenses massacrados de tensão e violência gratuita, é sim um suspense, mas é puro e temporal. É uma obra que trata de um caso que realmente aconteceu, um drama real em que uma família real fora vítima de uma mente completamente desconexa.

O fato é que em momento algum ele nos deixa esquecer de que estamos enfrentando a realidade de uma pessoa que não sabe lidar consigo mesma, com suas próprias emoções, ações e sentimentos. Entregando-nos em uma bandeja duas vítimas, a primeira vitima de si própria e a segunda vitima das ações de uma primeira. 

De um lado uma garota sem atenção alguma dos pais e do outro uma família que faz de tudo para encontrar a sua filha. Dois pólos distintos que são cruciais para a construção do caráter reflexivos sobre o ser humano, suas ações, pensamentos e realidades.

Há quem diga que In Her Skin é completamente superficial e cansativo. Eu concordo e discordo - em partes. Concordo quando o assunto é superficialidade, mas também discordo, pois acredito que seja muito difícil tecer algo sob a pouca luz de um caso que realmente aconteceu e que um dos focos pessoais é uma pessoa a qual ninguém realmente sabe, ou conseguirá entender, seus motivos e o que realmente se passava na sua mente. Discordo, ainda mais, quanto ao ser cansativo; é um filme de duração um pouco longa, sem nenhum acontecimento realmente susceptível a empolgação, mas essa é a intenção dele, não é uma super produção a qual muitos estão acostumados a lidar, não é indicado para aqueles que querem encontrar entusiasmo é ação, é sim um filme indicado para aqueles que gostam de apreciar um bom roteiro e que gostam de ter a oportunidade de tirar suas próprias conclusões quanto ao que acabou de assistir.

 Sem me alongar mais: é um filme excelente, apesar da temática não ser nada inovadora. Um trabalho que nos faz pensar e reconhecer o ser humano em cada nova cena, lidando com emoções pessoais e pontos de vista distintos e dividindo-se na vida de cada personagem e não fixado em um único ponto. Um relato muito bem feito, com uma fotografia simples e delicada, sobre o desespero de uma família e uma mente popularmente taxada de louca.

Não posso esquecer-me de mencionar as ótimas atuações, com destaque para Ruth Bradley (Caroline), que nos trouxe com maestria a intensidade dos transtornos de sua personagem. E também, Guy Pearce e Miranda Otto (Mr. e Mrs. Barber).

Uma bela surpresa australiana, ainda mais quando estamos cansados de nos deparar com adaptações completamente mal feitas e mal estruturadas. Assistam e tirem suas próprias conclusões, quanto ao filme e quanto à mente humana.


"Ao longo dessa tragédia a família Barber ficou unida, sabendo que encontrou a filha e a trouxe para casa."








05 setembro 2011

Artigo: Uma interpretação de "Alma Corsária" de Carlos Reichenbach


Nas nossa ruas ao amanhecer
Há tal sonoridade, há tal melancolia "
(Sentimento de um Ocidental / Cesário Verde)

O filme Alma Corsária de Carlos Reichenbach é uma declaração de amor à cidade de São Paulo, não por causa do seu fausto, sua glória inscrita nos mausoléus de vidro e concreto, mas por sua pulsante vida subterrânea onde convivem marginalizados à deriva do sistema econômico. 

Os personagens principais são os poetas Torres (Bertrand Duarte) e Xavier (Jandir Ferrari) inspirados respectivamente em Augusto dos Anjos e Cesário Verde. Cesário Verde dividia-se entre a atividade no comércio e a poesia, dilema que o acompanhará pelo resto de sua vida. Sua poesia é marcada por uma intensidade romântica que combina Eros e Tânatos, amor e morte. Augusto dos Anjos nasceu numa família humilde, sua poesia é de uma virulência quase sem precedentes, rebuscada e cheia de termos científicos, ela busca segundo Alfredo Bosi "A dimensão cósmica e a angústia moral do homem".

Torres e Xavier lançam um livro de poesia numa pastelaria do centro da cidade. Nada mais sintomático, a Boca do Lixo exerce um fascínio irresistível sobre o diretor, ele esnoba os espaços nobres e assépticos e busca aproximar-se dos espaços marginalizados, lá residiria a alma da cidade, apesar da degradação aparente. A festa de lançamento do livro conta a presença de cafetões, prostitutas, desocupados, além do editor e de parentes dos autores. Representações de pessoas de meios diversos convivendo naquele ambiente singular. O diretor mistura atores de prestígio como Walter Foster e Jorge Fernando com a ex-jurada do Sílvio Santos "Flor", desta forma provoca aqueles que estabelecem uma barreira intransponível entre a alta cultura e o gênero popular. Segundo declaração dada pelo próprio diretor, Flor e Jorge Fernando estão homenageando a "Chanchada", gênero marginalizado com a chegada do Cinema Novo.

Em uma cena aparece um negro forte, aparentemente vai carregar um piano, porém ele senta e começa a tocar Claire de Lune de Debussy, dando início a devaneios dos freqüentadores. O China sonha com sua terra, Flor pensa no Havaí. As imagens de viagem forma feitas pelo pai do diretor Carlos Reichenbach: esta seqüência deveria estar em qualquer antologia do cinema brasileiro pela sua forte carga poética. Ao mostrar a dança de uma anã e o homem tocando piano, ele nos alerta para que tenhamos cuidado com os falsos julgamentos, o sublime pode estar onde menos se espera. Os ideólogos da dominação: O filme questiona se ainda há espaço para a arte num mundo dominado pelo consumismo e pela competitividade vil. 

Palavras como: flexibilização, enxugamento, reestruturação escondem uma ideologia perversa, o discurso competente que segundo a filósofa Marilena Chauí elimina o poder de reação já que quem o dissemina apresenta credenciais poderosas, títulos que mascaram as intenções perversas. O neoconservadorismo está presente depois de diversas tentativas libertárias terem fracassado. Ao sistema dominante não interessa a contestação, é preciso que todos aceitem seu destino passivamente, como se não houvesse outras alternativas. A realidade presente é vista como a única possível, a capacidade de pensar diferente é suprimida. A inadequação de Bertrand ao procurar um trabalho exemplifica este aspecto. Ele é obrigado a aceitar atividades extremamente desestimulantes, o diretor chega a colocar um esqueleto para representar o funcionário padrão da empresa, o Osório.

Zurlini: Influência primeva e fundamental

O cineasta italiano Valério Zurlini, surgido na mesma época de Antonioni é uma das maiores inspirações do diretor, chamado de o poeta imagético da melanacolia, buscava a epifania nos sentimentos prosaicos. Seus estudos cromáticos que realizou junto com o seu fotógrafo Giussepe Rottuno buscavam uma textura além do negativo, ele dialogava com as artes plásticas e com a Literatura. O amor ao próximo demonstrado por Torres ao salvar um homem que tentava se suicidar e acolher uma prostituta maltratada demonstram uma similaridade com os personagens de Zurlini.

Os Cortes Temporais: Espírito de época

O diretor cria diversos cortes temporais durante o filme, retrata a infância dos personagens no início dos anos 1960, mostra os conflitos ideológicos durante o regime militar, critica tanto a violência dos donos do poder quanto a fé cega em discursos tirados das cartilhas de Karl Marx, Stalin, Mao entre outros . Duas cenas são impagáveis, numa delas Torres ao ouvir a palavra "massa" ser citada com exaustão fala que está ficando com fome, em outra cena Torres assiste à apresentação de slides contendo personagens históricos e manda voltar ao perceber uma imagem erótica perdida no meio das outras . A anarquia é exaltada numa cena em que Torres troca de camisa diversas vezes, elas contém mensagens ideológicas. Reichebach homenageou Andréa Tonacci com uma cena em que Carolina Ferraz representando uma musa misteriosa dança em cima de um prédio. No filme Bang-Bang de Tonnaci também ocorre a dança, só que em outro contexto. A dançarina de Bang-Bang é vigorosa nos gestos e na aparência enquanto a de Alma Corsária é leve, diáfana.


Torres tem visões, a musa misteriosa aparece para cuidar dele em diversas partes do filme, o amor total só é possível nas esferas da criação artística, volatilidade das imagens efêmeras. As relações reais dele são transitórias, é um errante condenado a pequenos momentos de felicidade.

A mistura de repertórios: Uma lição modernista

Uma das características principais da obra de Carlos Reichenbach é a mistura de repertórios. Em Alma Corsária ouvimos Debussy num bar da Boca do Lixo, poemas de Cesário Verde são lidos por um personagem errante, um lúpem (Abraão Farc). Onde parece haver um deslocamento contextual encontra-se uma das maiores qualidades do diretor, absorvendo a lição Modernista, digere influências, tira a arte da assepsia refrigerada dos espaços do poder e a restitui como informação nova na fala dos excluídos que vivem o anonimato das ruas.

Fonte: Mnemocine 
Feito por Diniz Antonio Gonçalves Junior

27 julho 2011

Artigo: Mangue Negro (2008)


O filme que redefiniu o padrão de qualidade para o cinema fantástico nacional.


Não esperava grande coisa de Mangue Negro. Apesar de ser alvo de inúmeras críticas positivas após sua apresentação no "Fantaspoa" de 2008, um respeitado festival de cinema fantástico que ocorre anualmente em Porto Alegre, e dos prêmios que recebeu (inclusive no exterior), não esperava muito de um filme de zumbis ambientado em um mangue no interior do Espirito Santo, escrito, dirigido e editado pelo desconhecido técnico em maquiagem e efeitos especiais Rodrigo Aragão. Para diminuir ainda mais minhas expectativas, Rodrigo teve a sua disposição um orçamento irrisório, que mal chegava aos 60 mil reais.

Mas nem só de decepções vive o cinema nacional, e apesar dos poucos recursos a sua disposição, Aragão conseguiu, em seu primeiro longa metragem, realizar um filme divertido e aterrorizante, com maquiagem impressionante, além de um nível de gore que faz relembrar clássicos como "Evil Dead" de Sam Raimi, e os filmes de horror italianos realizados na década de 70 e 80, como "Zombie 2" de Lucio Fulci.

O filme começa introduzindo (de maneira rápida, mas não "apressada") os personagens que compõem a trama. O falante pescador Agenor dos Santos (Markus Conká), conta histórias ao seu entediado colega enquanto remam a procura de um bom ponto de pesca no antes farto, mas agora pobre mangue. Batista (Reginaldo Secundo) , um catador de caranguejos, também sofre com escassez de caça do terreno onde vive.

Rachel (Kika de Oliveira) é uma bela jovem moradora do mangue, que cuida de sua mãe dona Alba, interpretada por Mauricio Junior (sim, um homem), uma velha cega, que passa os dias deitada em sua cama. Rachel também cuida do pai Valde (Ricardo Araujo), um senhor paralítico, com um surrado terno branco que me fez lembrar de Michael Keaton em "BeetleJuice", o terno, não a atuação. Enquanto lava roupa na beira do mangue, Rachel é observada por Luiz (Walderrama dos Santos), que perde a coragem para declarar seu amor à moça quando o nojento atravessador Antonio (Antonio Lâmego) bolina a garota que rapidamente o repele.

Luiz volta pra casa e encontra seu abusivo irmão, interpretado por Júlio Tigre. Juntos socorrem Batista, que aparece muito ferido em frente ao "barraco" dos irmãos. Batista conta que estava "catando caranguejos e caiu em cima das ostras", o irmão de Luiz tenta se aproveitar da situação ao saber que Batista havia conseguido encher um saco com caranguejos, ele vai a procura do tal saco deixando Batista sob os cuidados de Luiz com a belíssima frase: "Se eu chegar aqui e esse cara tiver morrido, vou te quebrar hein!" O ferido tenta impedir o irmão de Luiz de se deslocar até "a beira do canal", pois segundo ele, ele viu um defunto andando naquele local, mas o irmão de Luiz não dá ouvidos ao ferido e segue seu caminho.

Apesar do tratamento de Luiz, que tentou cauterizar as feridas de Batista usando um limão quente(!!!), Batista morre, fazendo Luiz Clamar em desespero "Ah não, ah não, ai meu Deus, ai meu Deus, puta que pariu...Agora eu to na merda." (ahahhahaahahah). Não demora nada para o corpo de Batista voltar a vida e atacar Luiz, que agora precisará lutar não só para defender sua vida, mas para defender a vida de sua amada.


Aqueles que não estão acostumados com "gore" podem se sentir nauseados durante a exibição do filme. Mangue Negro é literalmente um banho de sangue. O diretor gastou nada menos que 700 litros de sangue falso na produção. As cenas são muito gráficas e muito pouco fica "off screen". Podemos apreciar decepamento de cabeças e membros, banquetes de carne humana, cabeças esmagadas, tudo isso diante da câmera, deixando claro que o bom e velho sangue falso deixa no chinelo qualquer produção digital. Os efeitos especiais, também assinados por Rodrigo, são muito bem realizados, com o destaque para uma bela cena em stop motion.

A maquiagem é excelente tanto na caracterização dos zumbis, quanto na caracterização dos próprios personagens. Tanto dona Alba, quanto dona Benedita (André Lobo), são duas velhas senhoras interpretadas por homens jovens, assim como Ricardo Araújo, que está sob pesada maquiagem para interpretar o velho Valde.

Além dos trunfos técnicos, Mangue Negro ainda colhe os frutos do talento de Aragão como diretor. Rodrigo mostra inteligência tanto com seus inusitados ângulos de câmera, quanto na sua maneira de conduzir o roteiro. A história é contada de maneira não linear, com cenas em lugares diferentes ocorrendo em tempos diferentes, fazendo com que algumas cenas sejam explicadas ou complementadas por uma cena posterior.


O diretor ainda consegue manter o filme interessante, com diálogos divertidos e a excelente utilização da trilha sonora executada pela orquestra sinfônica do Espirito santo. Para o meu espanto, descobri recentemente que o filme foi todo rodado nos fundos da casa de Rodrigo (que mora na pequena cidade capixaba Guarapari), e que este realizou todo o trabalho de edição em quatro horas, em seu quarto. Isso é o que eu chamo de um belo trabalho artesanal.

É claro que Mangue Negro não é um filme perfeito, as dificuldades técnicas ficam claras principalmente nas cenas "noturnas", que na verdade parecem terem sido filmadas à luz do dia e posteriormente escurecidas com um tosco efeito digital, deixando boa parte do filme em tons de "cinza azulado". Os atores são amadores e a maioria não têm qualquer noção de representação. O roteiro as vezes é excessivamente divertido, com os personagens lançando falas engraçadas em momentos que deveriam ser de tensão para o expectador.

O incrível trabalho de maquiagem também fora prejudicado pela falta de recursos da produção, um bom exemplo são os "cabelos brancos" de dona Benedita, que visivelmente são na verdade pedaços de algodão. O agitado e trêmulo trabalho de câmera, em muitas cenas de ação, também não é do meu agrado.

Mas tais problemas são poucos comparados com as qualidades de Mangue Negro, um filme que já é um clássico do cinema independente. Num país monopolizado pela "Globo filmes", fico imaginando o que faria Rodrigo Aragão com os 6 milhões de reais investidos na produção de "Se eu fosse você 2" por exemplo.

Rodrigo Aragão já estreou esse ano, novamente recebendo muitas críticas positivas, o seu segundo longa intitulado: "A noite do chupacabras". Desta vez aguardo este filme com a melhor das expectativas.

Por Luiz Gustavo Klumb Kiesow.

15 maio 2011

Artigo: Biutiful (2010)



Acho que esse é o momento que eu me deixo levar por um filme e sinto uma vontade incontrolável de escrever algo sobre ele, mesmo que eu ainda não tenha realmente absorvido ou ligado as pontas. Mas pensando bem, esse momento é o momento exato para escrever algo sobre esse filme.

Que filme?

Biutiful.

Biutiful, de Iñárritu. Um drama meio cru, uma história sem explosões (ou lutas, ou tiros, ou romance, ou fantasia) hollywoodianas; que conta a história de Uxbal (Bardem), um médium que nunca conheceu o pai, que vive uma relação não muito amigável com o irmão, tem de cuidar de seus dois filhos e de uma complicada ex-mulher bipolar. Se não bastassem todos esses problemas familiares, ele é um “explorador” de imigrantes africanos e chineses, e ganha a vida com isso. Mas o drama realmente começa quando descobre que sofre de um câncer terminal.


“A típica história de um cara que leva uma vida fodida, que só tende a piorar a cada momento.” Foi isso que eu pensei quando ouvi falar desse filme. Agora eu vejo que não é exatamente isso.


Então, o que é, afinal?

Bem, isso você irá poder dizer quando assistir. Porque eu, eu só o defino como “algo maravilhoso”.


Iñárritu nos surpreende, mais uma vez. Não com um clichê bem elaborado, mas sim com um drama de linguagem limpa, mensagem pesada, realidade crua, verossímil e cruel. Bem típico dele, sem amores que morrem, mas com algo real e palpável, um drama que muitas pessoas enfrentam diariamente, e que muitas vezes são deixados de lado por todo o resto.

Talvez filmes como este não sejam o forte do mercado cinematográfico atual. Não é uma obra pré-fabricada, direcionada a massa. Ele não nos tira da nossa realidade, ele na verdade nos puxa de encontro a ela. Não é o típico filme que enche os cinemas, principalmente no Brasil. Pois a população gosta de manter-se alienada, e prefere imaginar coisas que não fazem parte de suas vidas, ao invés de encarar.

Biutiful não é um roteiro poderoso, é um roteiro vital, um pouco atrapalhado. O movimento das câmeras. A fotografia. Que é capaz de transmitir emoção, te fazer arrepiar, e em alguns momentos não te transmitir nada. Deixa um vazio, certa interrogação, que talvez nunca seja preenchida, um buraco negro que não atrapalha em nada.

Biutiful é feito de belas e incríveis atuações, desde o protagonista aos coadjuvantes. Bardem é um dos pontos mais fortes do filme, rouba a cena, e em alguns pontos carrega tudo nas costas.

Biutiful nos mostra a beleza em meio uma vida cruel. Mostra-nos que apesar de todos os problemas que o personagem principal enfrenta, ele jamais perde a alegria, a dignidade, que mesmo com tudo isso ele se esforça ao máximo para ser o melhor pai possível, e isso emociona, isso quebra um pouco o clima sufocante. Mostra-nos a vida de um homem que está prestes a ir de encontro com a morte e que apesar de ter todo um entendimento sobre o que ela realmente é, ainda se nega a abraçá-la.

Enfim, algo simples, belo. Quase como uma bela pintura de guerra, uma obra de arte.















Cássia Benemann da Silva



17 março 2011

Artigo: Orgulho, Preconceito e Beleza


Eis uma mulher nesse blog, finalmente. Uma mulher pra botar ordem nessa bagaça. Convenhamos que o meu gosto não é muito parecido com o deles, na verdade não é nem um pouco parecido, é só ver pelo meu post de estréia.

O que eu posso dizer sobre mim?

Sou uma aspirante a escritora, que sonha em publicar muitos livros e ser editora de uma revista. Gosto bastante de filmes, talvez não tanto quanto os outros autores, mas ainda sim é bastante. Não tenho um gosto definido, mas se tiver o Burton no meio eu topo. Sou chata, mas no fundo sou legal.

Espero que eu não seja apedrejada do blog, e que vocês sejam legais comigo. Vou tentar trazer coisas legais pra cá, mas se eu exagerar ou viajar muito, gritem.

Ah! Prazer, meu nome é Cássia.

Vamos ao artigo:

O que se esperar de uma adaptação de um livro para o cinema?

Uma catástrofe total? Desperdício de tempo e dinheiro? Ou algo realmente bem feito?

A resposta mais certa para essas perguntas talvez seja um “não sabemos”. Pois cada nova adaptação que surge com ela vem uma nova surpresa, boa para alguns e péssima para outros.

E o que se esperar de uma adaptação de um dos mais famosos romances já escritos?

Uma surpresa boa, mas na qual faltou algo, algo muito importante. Essa surpresa chama-se Orgulho e Preconceito, adaptação do ano de 2005.

Saudemos Deborah Moggach, uma iniciante que se encheu de coragem e deu a cara à tapa.

Orgulho e Preconceito, o livro, fora escrito por Jane Austen em 1797, mas só fora publicado 1813. Tanto livro quanto filme contam a história de Elizabeth Bennet (Keira Knightley), segunda de cinco filhas; uma jovem a frente de seu tempo que encontra dificuldades na sua adaptação a sociedade aristocrática inglesa do início do século XIX. Imersa em uma família pobre, juntamente com suas irmãs é criada tendo em vista a busca por um bom casamento. Com a chegada do Sr. Bingley (Simon Woods), um jovem rico e solteiro, vê sua família em um alvoroço com a possibilidade de um bom casamento para sua irmã mais velha, Jane Bennet (Rosamund Pike). Juntamente com Sr. Bingley teremos o Sr. Darcy (Matthew Macfadyen), um homem rico, arrogante e prepotente, que lhe despertará ódio e nojo. De início os dois não se darão nada bem, ela é pobre e ele soberbo, mas como todo bom romance se apaixonarão e depois de muitas idas e vindas aceitarão um ao outro. (Um resumo bem pobre e bem resumido, mas resumos não são meu forte)

Trata-se de um romance, um bom e belo romance como todos deveriam ser. Mas que Moggach não soube aproveitar muito bem.

Não posso deixar de elogiar o trabalho dela quando falamos dos diálogos do filme, pois muitos, se não a maioria, são exatamente iguais aos do livro, não foram cortados ou modificados, estão lá intactos para o deleite dos amantes da obra impressa. Isso é realmente raro de acontecer nas adaptações, são poucos os roteiristas que tem a delicadeza de preservar falas importantes e significativas.


A fotografia, do filme, nos trás uma bela imagem da Inglaterra Vitoriana, com suas paisagens e construções imponentes. Uma sutileza e magnitude singulares, fazendo com que tivéssemos vontade de estar naqueles lugares, presenciar aquelas cenas. Algo belo e encantador.

Mas nem tudo são flores. Logo nas primeiras cenas podemos notar o quanto o filme é cru e inexperiente, apesar dos diálogos serem bem fiéis, Moggach não soube captar a essência da obra de Austen. Faltou a ironia, a emoção, a comoção, que Jane transmitiu às suas palavras. (Assista Becoming Jane) Isso fez com que a atuação dos atores fossem limitadas e frias.

Contudo o maior problema, não só dele, mas de quase todos é o tempo. Limitar toda uma obra em algumas pouquíssimas horas, quando chega a isso, quebra totalmente a compreensão da história. Cenas realmente importantes foram retiradas do filme, deixando vários buracos e muitos expectadores sem entender a mudança de sentimentos e cenas. Sem contar que várias cenas foram mudadas de cenário o que trouxe um ar ainda mais romântico, o que não era necessário. Mas o corte é compreensível, pois acho que poucos gastariam de ficar horas assistindo o romance completo (e um romance completo é quase impossível, sem ser o livro).

Outro ponto que conta contra a adaptação é a falta de mudanças emocionais dos atores, principalmente de Matthew, como é descrito no livro. Mas nos demais momentos a interpretação fora ótima e digna de indicação de Oscar (como aconteceu em Keira).


Por último, mas não menos importante, e talvez o grande coringa do filme: a trilha sonora. Completamente presente, maravilhosa e belíssima. Dario Marianelli fora o grande responsável por essa envolvente e viva trilha. A cada nova cena de um baile as músicas podem nos dar a vontade de dançar, de estar dançando. Algo muito parecido com o nascer de um dia de primavera.

De um modo geral o filme é bem agradável e perfeito para quem não leu o livro e procura um bom romance, sem ser meloso e adolescente. É envolvente, seguro e brilhante. Não é perfeito, mas tem seus defeitos bem justificados e aceitáveis. Não é a primeira adaptação do livro, mas é a mais ousada de todas. Com toda a certeza um filme feito para se ter na estante de casa e assistir sempre que puder.

Extras:

  • A direção fora deixada a cargo de Joe Wright, também estreante nas telonas. Uma direção bem feita por sinal, feita sem pressa.
  • Fora filmado inteiramente em uma locação na Inglaterra e utilizou várias casas famosas do país.

Cássia Benemann da Silva

10 fevereiro 2011

Artigo: A Onda (2008)


Ótimo drama funciona como filme e ainda levanta questionamentos sociais muito pertinentes.

O cinema  alemão contemporâneo parece carregar certa preocupação já há considerável tempo, demonstrando através de filmes políticos reconhecer o que o país causou ao mundo, através de sua administração governamental, durante parte do século passado. Ótimos exemplos como Adeus, Lênin!, Edukators e A Vida dos Outros justificam a afirmação anterior, assim como A Onda, filme que se une ao segmento supracitado que, além de agregar mérito à cinematografia alemã recente, serve como base para análises sociológicas muito pertinentes à questões nem sempre levantadas.
A Onda se inicia com uma informação que pode impressionar quem conhece previamente o tema do filme: é baseado em fatos. Nele, o professor Rainer Wenger deve trabalhar com seus alunos a autocracia, embora estivesse esperando a anarquia como temática para sua disciplina de curta duração. Em dúvida sobre como levantar tal assunto em aula, ainda mais quando seus alunos apresentam certo desinteresse, decide demonstrar na prática o significado da autocracia e dos mecanismos fascistas que hoje fazem parte do passado do governo alemão.

Na turma de Rainer, professor que já era admirado por seus alunos anteriormente, em parte por ser jovem e dono de estilo despojado - uma camiseta da banda Ramones é peça de seu vestuário no primeiro dia de aula, por exemplo -, o movimento começa através do sugerido poder pela disciplina, fazendo com que sua turma siga algumas regras a fim de se tornar obediente. Proclamado o líder, Rainer segue alimentando o movimento com indicações, que passam cada vez mais a agradar os alunos: define um nome para o grupo (Die Welle, no original, traduzido como A Onda), um símbolo, um cumprimento e um uniforme. Através de cada pequena imposição o professor vê suas intenções funcionando, mas não as consequências, já que a experiência sai da sala de aula e se torna ideologia dos jovens influenciados. O Die Welle então se torna um movimento do coletivo, que termina com a individualidade e livre arbítrio dos membros em benefício à suposta ordem e união. A manifestação rapidamente se dissipa pela escola e cada vez mais alunos decidem integrar o grupo, que discrimina qualquer um que não faça parte dele.

Ocorrido originalmente na Califórnia, em 1967, o experimento que deu origem ao filme foi batizado de A Terceira Onda e proposto por Ron Jones, professor de história que devia abordar o fascismo em aula. Jones optou pela experiência quando percebeu que seus alunos não compreendiam a declarada ignorância do povo alemão em relação ao extermínio de judeus, durante o regime nazista. O professor decidiu então simular em uma espécie de microcosmo social, composto por ele e seus alunos, o término da democracia para elevar o poder da unidade, enquanto seguia a máxima “força pela disciplina, força pela comunidade, força pela ação, força pelo orgulho”.

Através de ótica pessimista, A Onda funciona tanto como obra cinematográfica inteligente quanto crítica social, embora peque vez ou outra ao inserir resoluções que obviamente favorecem mais o drama que a realidade. Enquanto acerta no tom com que demonstra as transformações vividas pelo personagem do professor, que fica cego pelo controle e não percebe as implicações prejudiciais de seu experimento, o filme apresenta a juventude através de um viés pouco aprofundado, acrescentando personagens inverossímeis que se enquadram em arquétipos recorrentemente utilizados no cinema com ambientação escolar: o esportista popular, a garota inteligente e alternativa, o jovem deslocado e incompreendido, dentre outros.

Com direção competente de Dennis Gansel, realizador que reconheceu a força da história que tinha em mãos e procurou a beneficiar com sua direção, e não se sobrepor a ela, A Onda ainda conta com um elenco que, diferentemente do Die Welle, funciona tão bem na unidade quando no coletivo. Uma boa surpresa é a performance de Jürgen Vogel, intérprete de Rainer, que não desequilibra a narrativa com excessos e apresenta desempenho bastante satisfatório. No roteiro de Peter Thorwarth e do próprio Gansel ainda se percebe a preocupação de ambos em destinarem o tempo correto de participação e destaque tanto ao núcleo adolescente quanto ao personagem do professor, o que serve para que o espectador se integre à realidade da obra em questão e sinta maior empatia e identificação para com seus personagens, assimilando as motivações de cada um para suas atitudes – mas nem sempre as compreendendo ou as aceitando.


A Onda revisita situações e levanta questionamentos que parecem distantes da realidade social de hoje para muitos, mas que são facilmente identificados, uma vez que se considere a homogeneização da população contemporânea, massificada não apenas pela mídia – como corretamente é dito – mas também por si própria. O pensamento fabricado é realidade latente de nosso tempo e aparece no grupo de A Onda como crítica ao comportamento do jovem do novo século, facilmente influenciável, que busca a integração em grupos sociais e abnega sua liberdade individual para fazer parte de algo maior. 

Fonte: Cineplayers

07 janeiro 2011

Artigo: Banquete no Inferno - Uma fórmula já manjada, porém eficaz se bem usada


Um bar com clientes dos mais diversos tipos, e alguns monstros. Essa foi a fórmula usada em Banquete no Inferno, Diversão garantida regada a muito humor negro e sangue.



 Seguindo a linha de filmes em que estranhos acabam se unindo por vontade do destino contra algum mal maior, Banquete no Inferno se passa em uma estrada deserta dos Estados Unidos, em um bar onde alguns estranhos estão perto de dividir o maior pesadelo de suas vidas. Com a chegada de um casal ensanguentado no local, eles logo percebem que eles foram vítimas de um ataque de estranhas criaturas que os seguiram até lá e agora ameaçam a vida de todos. Um banho de sangue se inicia no bar e, se quiserem sobreviver à noite, todos terão que colocar suas diferenças de lado, isolar o bar do mundo exterior e se armar para que as gigantescas, perversas e inteligentes criaturas não eliminem um a um.
 

Pessoas presas em um recinto no meio do nada sob a pressão de estarem cercadas por bizarras criaruras sedentas por carne humana. Feast rende um banquete regado a muito molho pardo.
O veterano Wes Craven divide as glórias da produção com nada mais nada menos que Ben Afflek e Matt Damon.
 

Os caras apostaram numa trama meio tarantinesca pra narrar esta história de survival horror, que vai do terror em altas dosagens, a comédia de humor negro, o que ficou muito classe A.
O filme conta com a paricipação de um cara que está se tornando clássico no terror: Henry Rollins, vocalista da banda veterana de Hardcore Black Flag. Pra quem curte tomar uns drinks no inferno vale dar uma conferida no cardápio.



02 janeiro 2011

Artigo: Glauber Chatos e o Modismo no Cinema


Nos próximos parágrafos a palavra “cult” se repetirá incansavelmente.

Olá, sou Luiz Gustavo e este é o meu primeiro post aqui no “A Terça Parte do Cinema”. Escreverei aqui artigos e críticas sobre filmes que julgo que devam ser conferidos por algum motivo. Este meu primeiro texto fugirá um pouco da linha dos demais. Começar com este artigo talvez não seja a forma mais inteligente ou até mesmo a forma mais adequada de “estrear” neste blog, pois o artigo pode ser considerado um pouco ofensivo com um público em especifico. Deixando as apresentações de lado vamos ao artigo propriamente dito.

Não existe nada mais irritante no universo cinematográfico que o modismo, e eu não estou falando dos filmes idolatrados por pré-adolescentes na atualidade, falo de um gênero de produção que é idolatrado por pessoas cultas (ou que se julgam cultas). Se a adoração é verdadeira não existe reclamação de minha parte, o problema é que existe um grande número de pessoas que mesmo não gostando, ou até mesmo desconhecendo determinado gênero faz questão de elogiá-lo e defendê-lo com unhas e dentes para poder se integrar ao meio “cult”.

É cult gostar de cinema oriental, é cult gostar de cinema argentino, está se tornando cult gostar de “filmes B” e, em todo o Brasil, é cult idolatrar Glauber Rocha.

De maneira nenhuma estou criticando esses gêneros, eu mesmo sou um amante de filmes B por exemplo, o que irrita é que se você fugir dessas tendências você será considerado um completo ignorante. Eu honestamente acredito que 50% dos fãs de Glauber Rocha pensam o mesmo que eu sobre esse diretor. Não entendo como se iniciou a beatificação deste cineasta. Para mim, ele foi o pior representante do “cinema verité” no Brasil e no mundo.

Como aqueles filmes confusos e caricatos poderiam agradar à um público tão vasto e exigente? Contorcia-me na cadeira quando ouvi em uma amostra de cinema, uma comparação entre a linguagem metafórica de Glauber Rocha em “Deus e o diabo na terra do sol” e a linguagem utilizada no excelente “outubro” de Sergei Eisenstein . Acho que os filmes do brasileiro são, tecnicamente e intelectualmente falando, muito ruins.

Mas minha opinião não é absoluta e talvez eu apenas não tenha inteligência o suficiente para admirar Glauber Rocha, mas como já disse anteriormente, acredito que muitas pessoas pensam como eu e apenas não admitem, temendo criticas negativas.
Glauber Rocha é apenas um exemplo genérico, existem muitas tendências no cinema atual, se essas tendências iram perdurar ou não só o tempo poderá responder.

As tendências do momento:
Algumas coisas que estão virando moda na sétima arte.

Cinema oriental:
Diferente dos roteiristas norte americanos, os roteiristas do velho continente não param de surgir com histórias inteligentes e intrigantes, o resultado é a crescente onda de “remakes” americanos de filmes orientais. Parece que o mercado de Hollywood acha que é mais fácil comprar os direitos e refilmar um filme do que simplesmente legenda-lo.

Filmes Trash:
O “cinema B” sempre teve um número muito restrito de adoradores, mas por alguma razão cada vez mais se encontram pessoas que adoram procurar e assistir produções obscuras e de baixo orçamento. Trash vêm se tornando sinônimo de cult.

3D:
Tendência que contagiou produtores no mundo inteiro algo parecido com que aconteceu com o efeito “Bullet time” após o lançamento de “Matrix”. Está se tornando obrigatório filmar em 3D, até mesmo filmes que não fariam nenhum sentido nesse formato. Espero de verdade que os produtores do mundo inteiro saibam usar esse interessante recurso com moderação.

Cinema argentino:
Ainda não é, mas tenho certeza que vai se tornar uma febre entre os cults e pseudo cults brasileiros. O cinema argentino está anos luz a frente do cinema nacional, e com o Oscar, que muitos dizem ter sido injusto, entregue à “O segredo dos seus olhos” o cinema dos hermanos só tende ao desenvolvimento.

E assim termina meu primeiro texto (ou seria desabafo?) aqui neste blog, sendo um pouco prepotente, espero que meu texto ajude as pessoas a desenvolverem o senso crítico, e que não tenha desagradado a muitos.
Até o próximo.

P.S: Como li em um lugar uma vez: “Decorar meia dúzia de criticas cinematográficas não faz de você cult, faz de você um idiota”.

17 setembro 2010

Artigo: O Anjo Exterminador (1962), de Luis Buñuel



O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel é tido por muitos como uma de suas maiores obras-primas, e uma das obras surrealistas máximas de toda a história do cinema. Como tal, causa uma grande expectativa para quem o vê pela primeira vez, e com certeza deixa uma impressão marcante em quem o assiste.

O início do filme parece-se muito com uma obra de Robert Altman. Uma profusão de personagens no que parece ser um simples jantar de gala oferecido por um rico aristocrata aos seus convidados. No entanto, à medida que as cenas se sucedem, percebe-se algo estranho. Nenhum dos convidados vai para casa, passando a noite na sala de forma nada convencional para membros da alta sociedade. Mais a seguir todos percebem que, de forma inexplicável, ninguém parece ser capaz de sair da casa. Trancados naquele espaço ínfimo, todos têm que lidar com seus medos e interagir com os outros num ambiente de implacável tensão e isolamento.

A carga crítica contra os costumes da burguesia contida neste filme é impressionante. Quando as máscaras e as convenções começam a cair por terra, é interessante observar a degradação daqueles que se colocam acima de toda a sociedade e a sua reação diante das dificuldades encontradas. Mesmo a audiência se acostuma, depois de algum tempo de filme, ao fato de que eles não sairão da casa, e esquece o porquê daquilo estar acontecendo. A pergunta que inicialmente é feita (por que diabos isso está acontecendo?) estabelece um mistério inicial que depois dá lugar à angústia que perdura até o final. E, em se tratando de uma obra abertamente surrealista, não há garantia alguma de que este mistério terá uma "solução", digamos, transparente.

Alfinetadas sutis e quase imperceptíveis sobre adultério, incesto e homossexualidade são insinuadas no decorrer do filme. Além disso, várias questões são levantadas. Sobre quem deveria ou não estar preso na casa e sobre aqueles que sentiram uma vontade incontrolável de sair antes do fim do jantar, por exemplo. Por quê? O que estaria por trás de tudo? Independente de como cada um interpretará o desfecho, O Anjo Exterminador é um filme original e marcante, mas decididamente não indicado à platéia ávida por" filmes pipoca".

26 agosto 2010

Artigo: A Origem (2010) de Christopher Nolan

"A Origem, de Christopher Nolan. Muito provavelmente, o melhor filme do ano."(Contém Spoiler a partir da segunda e terceira parte do texto)

Ao longo de sua carreira, o cineasta britânico Christopher Nolan comandou sete longas-metragens: Following, Amnésia, Insônia, Batman Begins, O Grande Truque, O Cavaleiro das Trevas e A Origem. Destes, assisti a seis (ainda não conferi sua estréia na função) e classifiquei todos, exceto um, como “cinco estrelas” (a refilmagem Insônia ganhou quatro). Mas mais significativo é o fato de que, dos cinco sobre os quais escrevi, nada menos do que três (incluindo este A Origem) inspiraram críticas que exigiram ser divididas em duas (ou - aqui - três) partes para que eu pudesse abordar melhor a complexidade temática e/ou narrativa das obras – e se você ficou confuso com a quantidade de números que citei neste primeiro parágrafo, aconselho que evite o novo trabalho do diretor, que tampouco oferece uma jornada fácil aos seus espectadores.

Concebido como uma mistura incrivelmente eficiente de Paprika, Sinédoque, NY, Rififi e Matrix, A Origem é uma ficção científica que faz jus aos melhores do gênero, apresentando-nos a conceitos intrigantes e dedicando-se, então, a explorá-los até suas conseqüências mais extremas. Escrito pelo próprio Christopher Nolan com uma inteligência que deixaria Philip K. Dick orgulhoso, o roteiro acompanha um grupo de espiões industriais que, liderados por Don Cobb (DiCaprio), invadem não os escritórios ou cofres das empresas-alvo, mas as mentes de seus principais executivos. Efetuando esta invasão durante os sonhos das vítimas, os ladrões são capazes até mesmo de simular níveis diferentes de “realidade” dentro da mente na qual se encontram com o objetivo de enganar o sonhador e convencê-lo a entregar seus segredos mais valiosos. É então que o poderoso Saito (Watanabe) decide contratar os espiões para que façam o procedimento inverso, plantando uma idéia na mente do jovem bilionário Robert Fischer (Murphy) – uma tarefa não só inédita, mas que pode trazer grandes riscos para Cobb e seu parceiro Arthur (Gordon-Levitt).

Um dos aspectos mais fascinantes deste intrigante conceito de invasão de sonhos (presente também na já citada animação Paprika e em Morte nos Sonhos) reside na idéia – perfeitamente explicada pela neurologia, que a identifica como um mecanismo de proteção do sono - de que fatores externos à mente possam influenciar os eventos presentes no universo onírico. Assim, sons, cheiros e movimentos detectados pela pessoa em repouso podem ser traduzidos em detalhes dos sonhos exatamente como o toque de um despertador muitas vezes é absorvido e transformado num som “reconfigurado” pela mente adormecida – algo que Nolan emprega ativamente no filme, por exemplo, ao trazer uma chuva torrencial como conseqüência da vontade do “sonhador” de ir ao banheiro ou, num dos melhores momentos do longa, ao enfocar um hotel que deixa de respeitar as leis da gravidade em função da situação caótica na qual se encontram as pessoas em cujos sonhos aquele prédio se encontra. Estas subversões da lógica do “mundo real”, aliás, são impecavelmente ilustradas pelos brilhantes efeitos visuais, que só não serão indicados ao Oscar caso os membros da Academia tenham dormido durante a projeção. Da mesma maneira, o fantástico design de produção se encarrega de dar vida a ambientes que, mesmo trazendo uma aparência sólida de realidade, freqüentemente surpreendem ao revelar níveis de insuspeita complexidade, como a “escadaria infinita”, o limbo arquitetado por Cobb ou a luxuosa edificação que abre a narrativa.

Aliás, em um primeiro momento, é possível que esta “aparência sólida de realidade” possa ser interpretada como uma oportunidade desperdiçada por Nolan e sua equipe – afinal, numa narrativa intensamente calcada num universo onírico, por que não subverter constantemente as leis da física e investir em mudanças abruptas (e mesmo absurdas) da geografia ou da lógica do que estamos vendo? Por que, por exemplo, ninguém se flagra nu em público ou descobre-se incapaz de se mover, representando sonhos comuns que poderiam despertar reações no espectador que enxergasse suas próprias experiências como “sonhador” na tela? A resposta, creio, deve-se mais à disciplina do cineasta como contador de histórias do que a uma possível falta de imaginação: já bastante convoluta ao envolver múltiplos níveis de realidades que se engolem como bonecas russas, a narrativa poderia facilmente atravessar a fronteira entre o complexo e o incompreensível, sendo prejudicada justamente por suas ambições. Além disso, ao trazer a figura de uma arquiteta (Page), Nolan justifica narrativamente a “solidez” do sonho, que surge, então, cuidadosamente planejado e organizado pelos invasores justamente para que se apresente com um mínimo de coerência interna que permita sua ação como espiões.

Ainda assim, A Origem não busca simplificar sua narrativa para o espectador, já que, além de envolver, como já citado, níveis diferentes de sonhos-dentro-de-sonhos (algo que fica claro na seqüência que abre o filme), logo descobrimos que o tempo tem duração diferente dependendo da profundidade na qual os heróis se encontram. Neste sentido, aliás, o roteiro busca complicar ao máximo o trabalho do montador Lee Smith, que, além de manter a ação num ritmo constante, é obrigado a enfocar ações paralelas que se passam em ambientes com regras próprias quanto à duração dos eventos que abrigam – e tudo isso sem que permita que a narrativa se torne indecifrável para o público, saindo-se admiravelmente bem na tarefa. (Já indicado ao Oscar por Mestre dos Mares e O Cavaleiro das Trevas, Smith provavelmente voltará à cerimônia pela terceira vez graças ao seu excepcional esforço nesta produção.)

Enquanto isso, o compositor Hans Zimmer faz um de seus melhores trabalhos ao criar uma trilha que já confere uma atmosfera sinistra e sombria ao filme desde os seus primeiros segundos, mas que, além disso, exibe uma lógica interna fabulosa ao empregar a base melódica da canção “Non, Je Ne Regrette Rien” (tornada famosa por Édith Piaf) como fonte do tema principal da narrativa ao executá-la numa cadência mais lenta – o que estabelece uma rima musical/temática perfeita com a música de Piaf, que, afinal, desempenha importante papel na trama. Da mesma forma, os figurinos ajudam a estabelecer com eficiência as personalidades dos personagens, desde as roupas mais joviais de Page aos ternos sóbrios de DiCaprio, passando pelos vestidos de femme fatale exibidos por Marion Cotillard. Vale observar, também, a importância de detalhes como a aliança de Cobb, que pode ou não ser vista em sua mão ao seguir uma lógica interna impecável.

Contando com um elenco admirável, Nolan extrai de seus atores os atributos necessários para que cada personagem desempenhe um papel preciso e importante na história: DiCaprio, dividindo características de composição apropriadamente reminiscentes de sua atuação em Ilha do Medo (com o qual A Origem formaria excelente sessão dupla), surge tenso e gradualmente mais angustiado e inseguro à medida em que a projeção avança, ao passo que Joseph Gordon-Levitt, como Arthur, exibe uma firmeza de ação que mantém o público sempre convencido de sua competência e de sua importância para os planos do parceiro. Marion Cotillard, por sua vez, encarna, como já dito, uma femme fatale que poderia ter saído diretamente de um noir, enquanto Ellen Page, como uma jovem que ganha a oportunidade de realizar o sonho de qualquer arquiteto (literalmente, neste caso), evita se tornar apenas a personagem “novata” que, como tal, é usada exclusivamente como recurso expositivo para esclarecer conceitos para o espectador; em vez disso, ela se torna peça importante ao fazer jus ao nome e auxiliar os demais em suas trajetórias dentro dos sonhos.

Respeitando o espectador ao não insistir em interromper a narrativa periodicamente para mastigar os acontecimentos, Christopher Nolan mantém esta confiança até o instante final da projeção, evitando um desfecho auto-explicativo que simplifique e resolva tudo para o público – que, assim, sairá do cinema discutindo ativamente o significado do que acabou de testemunhar (incluindo, claro, a cena final). Isto não quer dizer, porém, que A Origem não se resolva; a diferença é que, graças à complexidade de sua narrativa, o filme permite múltiplas conclusões igualmente satisfatórias.

E o melhor é que, para cumprir a tarefa de decifrar completamente estas alternativas, tudo o que o espectador deve fazer é se dar o presente de mergulhar novamente no inteligente e fascinante universo construído por este que vem se confirmando como um dos melhores diretores da atualidade. Uma tarefa de sonhos, convenhamos.

Mapeando a Origem

De modo geral, A Origem não é uma obra que busca complicar muito a vida do espectador. Sim, ao estabelecer o conceito de sonhos construídos dentro de outros sonhos, é possível que, aqui e ali, acabe levando o público a confusões momentâneas (em certo instante, Ariadne pergunta: “Agora estamos entrando no inconsciente de quem, mesmo?”), mas basta um pouco de paciência para que logo alcancemos os personagens e voltemos a nos situar dentro da narrativa.

Este jogo tem início logo na seqüência que abre o filme e que logo revela estar ocorrendo dentro de um sonho. Buscando convencer Saito a confiar seus segredos a ele, Cobb explica o conceito dos invasores de sonhos e se apresenta como um especialista capaz de treinar o executivo para que este seja capaz de se defender de espiões como ele. Segundos depois, no entanto, descobrimos que Cobb e Arthur já se encontram em um sonho, que acaba entrando em colapso quando Saito percebe a armação. Com a ação aparentemente frustrada, todos despertam em um pequeno apartamento e o japonês se mostra desapontado com a obviedade da estratégia dos ladrões – até que, ao observar um detalhe do cenário, percebe estar em outro sonho.

É assim, portanto, que Nolan estabelece um dos conceitos principais de seu filme – e a pergunta que os espectadores mais curiosos irão fazer é: mas, afinal, quem eram os responsáveis por cada “nível” de sonho?

Neste primeiro exemplo, a resposta é relativamente simples: Cobb, Arthur e Nash (Haas) se encontram em um trem-bala ao lado de Saito no mundo real. Quando todos adormecem, o “sonhador” que abriga o ambiente onírico é Nash, o arquiteto – e este primeiro nível de sonho é justamente o apartamento. A partir daí, Arthur e Cobb voltam a mergulhar em sedação ao lado de Saito, criando um segundo nível no qual o “sonhador” é Arthur – e descobrimos isso quando este é “morto” e volta ao primeiro nível, quando, então, o segundo sonho passa a entrar em colapso graças à sua ausência. Nesta seqüência, aliás, também descobrimos uma informação importante: o “sonhador” responsável por cada nível deve permanecer no ambiente que está hospedando enquanto os demais mergulham em camadas mais profundas – exatamente como Nash permaneceu no “apartamento”.

A partir destas informações acerca do mecanismo dos sonhos, podemos mapear com mais facilidade a complexa seqüência que surge como clímax da narrativa: no mundo real, Cobb, Arthur, Ariadne, Saito, Eames (o excelente Tom Hardy) e Yusuf (Rao) sedam o bilionário Fischer no avião – e todos entram em um sonho abrigado pelo especialista em sedação, Yusuf (sabemos disso por dois motivos: como ele está com a bexiga cheia, o sonho envolve chuva; e, mais tarde, quando todos mergulham em um nível mais profundo, ele permanece ali para manter o sonho estável). Nesta camada, o propósito da equipe é plantar o início da idéia na mente de Fischer, que deve ser levado a dividir o império deixado pelo pai.

Para isso, a equipe “seqüestra” o sujeito e Eames assume a identidade de Browning (Berenger), um homem no qual a vítima confia completamente. O propósito final, lembrem-se, é levar Fischer a abrir um cofre no nível mais profundo de seu inconsciente, descobrindo a semente de uma idéia que deverá acreditar ser sua. No entanto, para isso é fundamental que o rapaz acredite estar abrindo um cofre inviolável, sem desconfiar que a tal “semente” (um testamento que, assumindo a forma de um cata-vento, reforça sua ligação com a própria infância) foi plantada ali pelos invasores. É por esta razão que “Browning” (na realidade, Eames) revela a existência do tal testamento e Cobb obriga Fischer a dizer os primeiros números que surgirem em sua mente.

De posse destes números, todos (com exceção de Yusuf, que permanece no primeiro nível) voltam a se sedar, mergulhando num sonho que desta vez é abrigado por Arthur – reparem que o design básico do hotel remete às cores do sonho que abre o filme, também hospedado pelo personagem – e percebam que é ele quem ficará para trás quando todos descerem para o terceiro nível. Ali, Cobb se reapresenta a Fischer (que já esqueceu o sonho anterior) e explica que estão num sonho ameaçado por invasores, pedindo que este tente se “lembrar” do que estão buscando os ladrões – e é aí que os números anteriormente “plantados” são novamente reapresentados ao rapaz na forma de um número de telefone. Convencido de que aquele telefone foi originado por seu próprio inconsciente, Fischer é convencido de que eles representam o número de um quarto de hotel, sendo levado para lá por Cobb e sua equipe.

O bilionário encontra-se, então, plenamente convencido de estar sendo guiado por projeções de seu próprio inconsciente, sem desconfiar de que Cobb, Ariadne e os demais são invasores reais. É então que Eames volta a assumir a aparência de Browning e se apresenta como traidor ao rapaz, que fica atordoado com a revelação. Cobb, aproveitando a vulnerabilidade provocada na vítima, sugere que todos entrem no sonho de “Browning” para descobrir o que este tramava – e Fischer prontamente aceita, sem saber que, na realidade, estará entrando na mente de Eames.

Que, portanto, abriga o terceiro nível dos sonhos. É ali que se encontra o cofre que, aberto com os números que Fischer agora julga serem criação sua, revelará a semente da idéia encomendada por Saito – e que o pobre rapaz acreditará ter sido originada em sua própria mente.

Contudo, as coisas se complicam: Fischer e Saito são mortos antes do cofre ser aberto (na realidade, Saito vinha ferido desde o primeiro nível). Normalmente, a morte nos sonhos apenas levaria a vítima a despertar, mas a forte sedação, impedindo que isto ocorra, arremessa o sonhador a um nível mais profundo que Cobb batiza de “limbo”. Sem um ambiente planejado por um arquiteto, este limbo surgiria como um espaço vazio no qual seus ocupantes compartilhariam seus inconscientes – isto se Cobb e sua falecida esposa não tivessem passado o equivalente a 50 anos naquele nível, preenchendo-o com suas memórias e fantasias. É ali que Fischer é encontrado por Cobb e Ariadne depois que estes voltam a se sedar no terceiro nível (deixando Eames para trás, logicamente).

A esta altura, Nolan já levou o espectador a conhecer cinco níveis de realidade que apresentam ações paralelas: o mundo real e as camadas sonhadas por Yusuf, Arthur e Eames, além, claro, do limbo. E estabeleceu, também, que o tempo tem durações diferentes nestes “andares”: dez horas de sono no mundo real equivalem a uma semana no primeiro nível, alguns meses no segundo e dez anos no terceiro – um conceito fundamental para o despertar dos personagens, que só podem abandonar cada nível com a utilização de um “chute” (algo que provoque um grande choque, como uma queda ou a sensação de mergulhar em água gelada).

Reencontrando Fischer, Ariadne agora deve levá-lo de volta ao terceiro nível e, para isso, sincroniza um “chute” com a ressuscitação feita por Eames no andar superior – e quando este usa o desfibrilador no “corpo” do rapaz, a arquiteta atira-o de uma grande altura, no limbo, levando-o a despertar novamente diante do cofre. (Caso não tivesse sido simultaneamente ressuscitado por Eames no terceiro andar, Fischer simplesmente voltaria a morrer e retornaria ao limbo.) Em seguida, Ariadne também se atira do prédio e, com o “chute”, volta ao nível superior.

E é neste momento que Christopher Nolan e o montador Lee Smith orquestram um momento tão magnífico que, confesso, fui levado às lágrimas durante a projeção simplesmente por admirar a beleza da carpintaria dramática da seqüência: para que possam retornar ao primeiro nível dos sonhos (e, daí, para o mundo “real”), os heróis são obrigados a sincronizar os “chutes” em cada andar para que estes ocorram milissegundos antes dos “chutes” que virão no nível seguinte, levando-os, assim, de volta ao início. Para isso, usam a música cantada por Piaf como aviso sonoro que penetra em todas as camadas, permitindo que coordenem suas ações – e vê-los despertando em seqüência em cada “andar” foi algo que me comoveu de maneira inesperada justamente em função da inteligência e da elegância da estrutura da narrativa.

Uma estrutura que, claro, ainda precisaria de mais algum tempo para se completar de vez, já que, afinal, ainda deveria lidar com Cobb e Saito, que permaneciam presos no limbo.

O Fim da Origem

O que descobrimos, quase no desfecho do longa, é que Cobb já havia plantado uma idéia que resultara em desastre: depois de permanecer o equivalente a décadas no limbo ao lado de Mal (Cotillard), ele se apossara de seu totem para convencê-la de que aquilo era apenas um sonho.

(Um totem é um objeto que o “sonhador” deve escolher no mundo real e que apenas ele deve tocar; assim, ao manipulá-lo – e por ser a única a conhecer suas características -, a pessoa saberá se está sonhando ou não.)

Assim, depois de ser perseguido pela projeção das lembranças da esposa (que se matara no mundo real por julgar ainda estar em um sonho), Cobb finalmente a confronta no limbo e é apunhalado enquanto Ariadne retorna com Fischer para o terceiro nível. Isto, porém, é o ideal, já que, ao voltar a morrer – e ainda sob forte sedação -, o sujeito simplesmente retorna ao limbo, o que lhe permite encontrar Saito, que, tendo chegado ali antes (e em função do tempo dilatado nos níveis mais profundos), agora é um velho que beira a insanidade. O protagonista então busca alertar o outro sobre a realidade daquele lugar, tentando convencê-lo a se matar – já que, com o fim da sedação, a morte agora levaria ambos de volta ao mundo consciente.

Saito parece mover a mão em direção à arma que se encontra à sua frente e... Cobb e Saito despertam no avião. Inocentado graças à interferência do japonês, o herói retorna à sua casa e reencontra os filhos, finalmente sendo capaz de enxergar seus rostos (algo que o afligia durante toda a projeção). Nos segundos finais do filme, porém, ele gira seu totem sobre uma mesa, para certificar-se de que não está sonhando, mas abandona o aposento antes que o objeto pare de rodar – o que comprovaria estar no mundo real. Nolan, sádico, enfoca o totem por mais algum tempo, mas corta para os créditos finais antes que este finalmente interrompa o movimento, deixando o público inseguro acerca do que acabou de ver.

Afinal, Cobb voltou realmente a se encontrar com os filhos ou ainda permanece sonhando?

É uma questão intrigante que permite respostas múltiplas: em primeiro lugar, seria possível até mesmo que Mal estivesse correta em sua percepção e que tudo o que vimos ao longo de A Origem fosse apenas um sonho de Cobb. Neste caso, ao se matar ela teria retornado de fato ao mundo consciente, deixando o marido preso nos sonhos embora este acreditasse justamente no oposto. Há alguns elementos ao longo da narrativa que poderiam indicar esta alternativa, desde a cena no porão de Yusuf, quando um velhinho que ministra sedação afirma que, para seus clientes, “o sonho se tornou realidade”, até o instante em que, sendo perseguido por alguns capangas, Cobb se espreme em um bequinho durante sua fuga – numa imagem típica de sonhos. Além disso, como o sujeito pegou o totem que pertencia à esposa, é possível que as cenas nas quais ele manipula o objeto para se certificar da realidade à sua volta sejam mentirosas justamente graças a algum tipo de falsificação feita pela dona original do brinquedo.

Esta explicação, no entanto, envolveria uma imensa desonestidade por parte de Nolan, que, afinal, gasta um tempo precioso explicando a função do totem – e seria impensável que, depois de tudo isso, o tal objeto simplesmente não desempenhasse função alguma. Assim, devo dizer que rejeito esta alternativa.

O que nos deixa, então, com a opção de que toda a ação do filme tenha de fato ocorrido e que apenas o destino final de Cobb se mantenha dúbio: ele conseguiu, afinal, abandonar o limbo depois de encontrar Saito ou não?

Por um lado, bastaria que Saito baleasse Cobb e se matasse em seguida para que tudo se resolvesse – e mesmo que o japonês se recusasse a fazê-lo, Cobb poderia matá-lo e cometer “suicídio”. No mínimo, ao tentar atacar Saito, Cobb provavelmente seria morto, retornando à realidade (é difícil acreditar que o outro o manteria prisioneiro no limbo e sob constante supervisão para impedir sua “morte”) – e como ambos surgem despertando no avião, é razoável acreditar que tudo tenha funcionado bem.

Por outro lado, isto seria funcionar bem demais. Afinal, com um telefonema Saito parece livrar Cobb da perseguição da justiça norte-americana e, pouco depois, o herói já se encontra reunido à família, o que é excessivamente conveniente. Além disso, é no mínimo estranho que seus filhos usem roupas praticamente idênticas àquelas que vestiam em seus sonhos, que façam movimentos estranhamente similares e – mais do que isso – que não pareçam ter envelhecido um segundo desde a última lembrança do protagonista, já que este parece ter ficado no mínimo um ou dois anos longe delas.

E há, claro, o totem. Ao ser girado nos sonhos, o objeto mantinha um movimento impecável, sem oscilações visíveis, ao passo que, na cena final, ele claramente oscila. Além disso, exatamente no instante em que Nolan corta para os créditos, há um som que poderia indicar o início da queda do objeto.

Que, contudo, poderia perfeitamente ter continuado a girar, indicado se tratar de um sonho.

Em outras palavras: cada espectador poderá chegar a uma conclusão perfeitamente legítima a partir de suas próprias inclinações. Aqueles que apreciam um final feliz podem defender com convicção o reencontro de Cobb com os filhos, ao passo que os céticos não estarão errados em afirmar que o protagonista jamais despertou dos sonhos (ou, no mínimo, que ainda não voltou à realidade).

Minha percepção particular? Jamais poderemos ter certeza – e acredito que Nolan plantou esta dúvida por um motivo importante: o próprio Cobb, depois de ter vivenciado tudo aquilo, tampouco poderá sentir conforto na realidade. Ele sabe que seu totem pertencia a Mal e, assim, poderia ser manipulado em sonhos; ele sabe que a permanência no limbo acaba levando o sonhador a acreditar que aquele é o mundo real; e ele sabe que, da mesma forma que plantou a idéia em Mal de que tudo não passava de um sonho, ele mesmo pode ter sido vítima desta semente – como aponta a última conversa que mantém com a esposa diante de Ariadne, antes de ser esfaqueado.

Assim, a incerteza do espectador diante do final reflete apenas a dúvida do próprio protagonista acerca de sua própria realidade. Uma solução que, confesso, me encanta pela elegância e simetria e que, portanto, passo a defender como a definitiva.

Fonte: Cinema em Cena.